Ano internacional vai fortalecer cooperativismo.
Abaixo entrevista divulgada pela revista Gestão Cooperativa, com o presidente da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), Márcio Lopes de Freitas. Na presidência da OCB desde 2001, Márcio Freitas é natural de Patrocínio Paulista (SP), atuou, a partir de 1994, nas diretorias da Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuaristas (Cocapec) e da Cooperativa de Crédito Rural (Credicocapec), como presidente. Na entrevista, Márcio Freitas falou sobre a importância de 2012 ser o ano internacional do cooperativismo, declarado pela ONU, as ações que se seguiram a partir do ano das cooperativas e o futuro do cooperativismo.
Gestão Cooperativa: A ONU declaro 2012 como o Ano Internacional das Cooperativas. Isso impacta de que maneira na imagem do movimento cooperativista?
Marcio Lopes Freitas: A declaração da ONU confirma a contribuição efetiva do movimento cooperativista mundial para a redução da pobreza, a partir da geração de trabalho e renda. É um reconhecimento internacional do importante papel que tem o setor para promoção do desenvolvimento sustentável. O cooperativismo realmente desperta nas pessoas o espírito empreendedor e as inclui social e economicamente. Tanto é assim, que hoje ele mobiliza cerca de 1 bilhão de cidadãos em todo o mundo. No Brasil, especificamente, esse numero chega a 30 milhões. A iniciativa das Nações Unidas nos abre também novas oportunidades, especialmente, porque os olhares estarão voltados para as nossas cooperativas. Será uma oportunidade ímpar de consolidar o cooperativismo como alternativo socioeconômica sustentável, como caminho para o crescimento de varias nações.
GC: No ano em que as cooperativas estarão em evidencia, qual será a principal mensagem a ser transmitida?
MLF: Em 2012, teremos a chance de apresentar para toda a sociedade, com o respaldo da ONU e o apoio dos governos federais, os benefícios do cooperativismo. Vamos aproveitar esse momento para mostrar de que forma já contribuímos e podemos somar ainda mais para o desenvolvimento global, por meio da prática dos valores e princípios cooperativistas, que têm como alicerces a união e a integração. A intenção é disseminar essa essência a um numero ainda maior de pessoas, em todos os cantos do mundo e mostrar que a força desse movimento está justamente na valorização do capital humano.
GC: Essa ação se refletira no numero de cooperativas e de cooperados? Qual é a expectativa?
MLF: Como teremos a oportunidade de disseminar os diferenciais do cooperativismo de forma mais enfática, acreditamos que mobilizaremos mais pessoas. A tendência, em função disso, é aumentar o numero de cooperados. Isso não deve ocorrer de imediato, mas gradativamente. E, nesse processo, poderemos presenciar o surgimento de novas cooperativas ou a expansão daquelas já existentes. Essa é, inclusive uma dinâmica que tem ocorrido. As organizações estão se juntando com o objetivo de ganhar escala no mercado.
GC: Nesse contexto, quais ações serão realizadas?
MLF: Nosso objetivo é fazer com que a população reconheça no dia a dia a presença e a importância das cooperativas. Para isso, estamos desenvolvendo atividades nesse sentido. Queremos mostrar que alimento que chega as suas casas e os serviços financeiros ou de transporte podem vir de uma organização cooperativa. Da mesma maneira, o atendimento prestado por um profissional de saúde, entre tantos outros setores nos quais atuamos. Enfim, a idéia é mostrar como trabalhamos, sensibilizando-as e convidando – as a fazer parte desse movimento. O ano será marcado por muitas comemorações, em todos os estado brasileiros, com participação das organizações do sistema OCB e de suas cooperativas.
GC: Em médio e longo prazo, há um planejamento predefinido?
MLF: A Aliança Cooperativa Internacional (ACI) já iniciou um trabalho de sensibilização dos representantes das Nações Unidas para que 2012 seja o primeiro ano de uma década dedicada a um fomento mais intenso a pratica cooperativista. O Brasil como membro da ACI, e nós, cooperativistas brasileiros, apoiamos essa ação e disseminaremos a idéia ao governo brasileiro, no momento oportuno.
GC: Frente a outros países, como o cooperativismo brasileiro se posiciona?
MLF: O cooperativismo brasileiro é considerado jovem porque possui uma história recente, com pouco mais de 100 aos. Nos últimos 40 anos, o setor conquistou maior relevância, tanto econômica quanto socialmente. Mesmo assim, apresenta características muito fortes. Dos países da América Latina, por exemplo, é o que tem atuação mais diversificada, além de participar mais ativamente da economia nacional e da própria sociedade. Não significa ser melhor ou pior que o cooperativismo de outros lugares, mais um movimento com a cara de Brasil. Então, podemos dizer que as nossas cooperativas estão aproveitando os momentos que a economia nacional oferece, figurando, com certeza, entre as grandes experiências realizadas no mundo. Tanto é assim, que o único presidente não europeu da Aliança Cooperativa Internacional (ACI) foi um brasileiro, Roberto Rodrigues.
GC: Como o senhor avalia o desempenho das cooperativas no Brasil, nos últimos anos?
MLF: O cooperativismo brasileiro tem conquistado um espaço cada vez maior na economia nacional, o que é conseqüência de um olhar voltado á profissionalização da gestão. Temos trabalhado fortemente para oferecer produtos e serviços com qualidade crescente, que se tornem referência no mercado interno e externo. E isso realmente tem ocorrido. Hoje, nossas 6.652 cooperativas reúnem 9 milhões de cooperados e geram 298 mil empregos diretos.Juntas,elas têm uma movimentação econômico-financeira de R$ 97 bilhões. A perspectiva para este ano é de fechar em U$$ 5,8 bilhões em vendas ao exterior. Além disso, atuamos em 13 setores distintos, tanto no campo quanto nas cidades. Alguns, mais tradicionais, já se firmaram como o agropecuário. Para se ter uma idéia, praticamente 50% de tudo que é produzido no país passa de alguma forma por uma cooperativa. Outros ramos também trabalham para ampliar e consolidar o seu espaço. O crédito, por exemplo, tem contabilizado índices expressivos de desenvolvimento. Um levantamento do Banco Central sobre o primeiro semestre de 2011 indica que as cooperativas de crédito cresceram acima da média das outras instituições financeiras nesse período. O cooperativismo de saúde, por sua vez, atende a um número ascendente de pessoas, assim como o de transporte. Essa é uma tendência para todas as atividades cooperativistas. Logicamente que, nesse contexto, temos que considerar o comportamento da economia brasileira,que, em certos momentos, pode proporcionar um cenário melhor para a expansão de alguns setores.
GC: As perspectivas para um futuro próximo estão propícias a um crescimento mais pujante?
MLF: Com certeza, há um espaço potencial para que o movimento cooperativista amplie o campo de atuação. O crescimento mais forte virá com o tempo, a partir de um amadurecimento natural, que será somado ao investimento no profissionalismo da gestão dos negócios e na evolução dos mecanismos de governança. Para isso, contamos com um ator social determinante: o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop). Temos o desafio de sensibilizar a sociedade para a prática cooperativista de forma mais incisiva no Ano Internacional das Cooperativas.
GC: Quais vertentes precisam ser trabalhadas para fomentar o desenvolvimento das cooperativas?
MLF: O crescimento das cooperativas está extremamente ligado á evolução da sociedade, ou seja, as pessoas precisam desenvolver mais a cultura da organização social. Esse é um processo que vai refletir em melhores empresas e, logicamente, melhores cooperativas. Para acelerar essa trajetória, precisamos trabalhar com mais ênfase a educação cooperativa, visando disseminar os conceitos e os princípios do cooperativismo para mais pessoas. Ao mesmo tempo, temos que investir na boa governança, visando á transparência e á segurança, além de seguir bons modelos de gestão profissional. Nesse contexto, é preciso ter sempre em mente que a cooperativa é, acima de tudo, um negócio e, portanto, deve ser gerida com profissionalismo e competência. Assim, com certeza, contribuiremos para esse processo evolutivo. Estamos apostando nisso por meio das ações desenvolvidas pelo Sescoop. Criado há pouco mais de dez anos, ele desenvolve ações de promoção social, no sentido de criar um ambiente mais propício para a expansão do cooperativista, tornando-o mais competitivo, ágil e moderno.
GC: E a OCB, de que forma tem atuado?
MLF: A função do órgão que representa as cooperativas é aplainar os caminhos, ou seja, criar um ambiente favorável ao seu desenvolvimento. A interlocução com os poderes constituídos da Republica-Executivo, Legislativo e Judiciário – sem dúvida, está entre as ações prioritárias. Atuamos estrategicamente para esclarecer e, ao mesmo tempo, reforçar as particularidades do cooperativismo, visando normas que atendam a essas características e contribuam para o crescimento do setor. Não menos relevante é a definição de marcos legais regulatórios que influenciarão diretamente no processo evolutivo das cooperativas. Precisamos de normas sintonizadas á realidade. No tocante á lei cooperativista, por exemplo, podemos dizer que o Brasil tem um aparato legal consistente, mesmo com originário de 1971. Mas muita coisa mudou, evoluiu, e temos que acompanhar essas alterações. Além disso, questões tributárias e regulamentações específicas para os ramos nos quais atua o segmento também estão entre as prioridades.
CG: O cooperativismo reafirma constantemente seus diferenciais e benefícios, inclusive nos momentos de crise. O ano 2012 também será uma oportunidade para ratificar a força do movimento?
MLF: Realmente, o cooperativismo tem reafirmado seus diferenciais em momentos dessa natureza. Foi assim na crise financeira mundial, no final de 2008 e inicio de 2009. Os efeitos foram sentidos pelas cooperativas, porém de forma menos impactante. O setor se mobilizou para contornar as dificuldades e criar novas oportunidades. Com a saída das tradings do mercado, a atuação do ramo crédito foi determinante para a continuidade da produção de muitos agricultores. É certo que faremos o mesmo em 2012. Haverá espaço para o desenvolvimento de todos os ramos de cooperativismo.
GC: Para finalizar, em sua opinião, qual é o principal legado do cooperativismo?
MLF: O grande diferencial do cooperativismo é ser formado por organizações de pessoas. Estamos falando de um movimento que valoriza e prioriza o capital humano e não o lucro. Logicamente que, ao ser constituído, a cooperativa atende ás necessidades sociais, mas também econômicas de um grupo. Afinal, tem o objetivo de gerar trabalho e renda com inclusão social. Fora essas questões, ser cooperativista é trabalhar em conjunto, ciente de que unidos seremos mais fortes e conquistaremos mais. É interessante ressaltar ainda que trata-se de uma atividade socialmente responsável, que promove naturalmente o desenvolvimento sustentável, gerando crescimento para as comunidades onde está presente.
Fonte: Revista Gestão Cooperativa ano 15 – nº53-novembro/dezembro2011 – entrevista por Ramon Paiva